{"id":7090,"date":"2020-04-16T11:51:46","date_gmt":"2020-04-16T14:51:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sindipetroba.org.br\/2019\/?p=7090"},"modified":"2020-04-16T11:55:19","modified_gmt":"2020-04-16T14:55:19","slug":"anatomia-de-um-desgoverno-cronica-de-uma-crise-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.sindipetroba.org.br\/2019\/anatomia-de-um-desgoverno-cronica-de-uma-crise-anunciada\/","title":{"rendered":"Anatomia de um desgoverno: cr\u00f4nica de uma crise anunciada"},"content":{"rendered":"<div class=\"header-default\">\n<div class=\"container relative\">\n<div class=\"header-content\">\n<p class=\"autor autor-white\">por\u00a0Angelo Del Vecchio e William Nozaki<\/p>\n<div class=\"date\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wrap\">\n<div class=\"content\">\n<div class=\"introduction-sides mt-5 sticky-scroll\">Artigo do <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/especial\/observatorio-da-economia-contemporanea\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Observat\u00f3rio da Economia Contempor\u00e2nea<\/a>\u00a0tra\u00e7a esquema das estruturas do governo Bolsonaro e analisa a din\u00e2mica do governo tocada por essa distribui\u00e7\u00e3o de poder<\/div>\n<div class=\"container\">\n<article class=\"article\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Afinal, do que se trata o ins\u00f3lito governo Bolsonaro? Antes de mais nada, \u00e9 importante ressaltar, n\u00e3o se pode dizer que haja propriamente um governo, no sentido de um conjunto funcional de decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es, centrado no presidente e composto por ministros que conduzam pol\u00edticas setoriais convergentes a um programa org\u00e2nico. O que \u00e9 poss\u00edvel perceber \u00e9 o estabelecimento de \u00e1reas funcionais, que, salvo em raras exce\u00e7\u00f5es, respondem mais a um cons\u00f3rcio de interesses do que a compet\u00eancias espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Nesse contexto, e sob o efeito da patente incapacidade de coordena\u00e7\u00e3o do presidente, os minist\u00e9rios, secretarias e empresas estatais a eles subordinadas, se agrupam ao sabor das disputas pol\u00edticas, da aparente ciclotimia presidencial, e de alian\u00e7as personalizadas que se estabelecem em torno de objetivos de ocasi\u00e3o, afinidades constru\u00eddas, ou ainda herdadas de experi\u00eancias anteriores de seus titulares.<\/p>\n<h5>A estrutura do desgoverno<\/h5>\n<p>Assim, temos a din\u00e2mica do governo tocada por uma distribui\u00e7\u00e3o de poder entre os minist\u00e9rios, que de modo esquem\u00e1tico pode ser delineada da seguinte maneira:<\/p>\n<p>1) O bloco de minist\u00e9rios exclusivamente dedicado \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas inclusivas, notadamente aquelas do campo da redistribui\u00e7\u00e3o e do reconhecimento, oriundas da Carta de 1988. \u00c9 o caso do Minist\u00e9rio da Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos, sob a condu\u00e7\u00e3o da pastora Damares Alves; do Turismo, cuja atua\u00e7\u00e3o seria impercept\u00edvel se n\u00e3o fosse a Secretaria de Cultura, polo de investidas contra o mundo da arte; da Educa\u00e7\u00e3o, onde inoper\u00e2ncias e bravatas tomam o lugar da conduta t\u00e9cnica; assim como ocorre na \u00e1rea do Meio Ambiente e da Cidadania, todos eles com foco principal no embate ideol\u00f3gico contra intelectuais e militantes das respectivas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m atuam nesse campo da disputa ideol\u00f3gica, mas com grande capacidade operacional, o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, sob a batuta do famigerado ex-juiz S\u00e9rgio Moro, produtor de pacotes legais que buscam o recrudescimento de uma das legisla\u00e7\u00f5es penais mais severas do planeta; e o das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, que nessa quadra desenvolve uma pol\u00edtica externa completamente estranha a quaisquer das linhagens da longa tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica brasileira.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>2) H\u00e1 o n\u00facleo dos minist\u00e9rios prioritariamente voltados ao incremento da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e de infraestrutura, al\u00e9m daquele que trata da correi\u00e7\u00e3o dos atos dos agentes do governo e do Estado. Embora tenham em comum com os demais n\u00facleos o vi\u00e9s regressivo, esses minist\u00e9rios, em contraste com o primeiro n\u00facleo, s\u00e3o ocupados por lideran\u00e7as razoavelmente capacitadas, e suas condu\u00e7\u00f5es n\u00e3o degradam as principais pol\u00edticas centrais das respectivas \u00e1reas. S\u00e3o eles a pasta da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento; da Controladoria-Geral da Uni\u00e3o; da Infraestrutura; de Minas e Energia; da Ci\u00eancia, Tecnologia, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es, estes tr\u00eas \u00faltimos ocupados por militares com boa forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, que, dadas as suas conex\u00f5es no meio de origem e na vida pol\u00edtica, al\u00e9m de press\u00f5es econ\u00f4micas setoriais relevantes, usufruem de consider\u00e1vel autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>3) Existe tamb\u00e9m o n\u00facleo constitu\u00eddo por militares, bem qualificados, que galgaram as mais altas patentes das For\u00e7as Armadas, e que t\u00eam trajet\u00f3rias que os aproximaram tempos antes de migrarem para o governo. Atualmente esse grupo atua no sentido de conter o \u00edmpeto beligerante do presidente e as investidas destrutivas que ele dirige ao aparelho do Estado. Contempor\u00e2neos de Bolsonaro na escola militar, t\u00eam exercido n\u00e3o apenas papel de relativa conten\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m desenvolvem uma estrat\u00e9gia com certo grau de coer\u00eancia, ainda que nem mesmo entre eles haja plena coes\u00e3o. Buscam reduzir danos promovidos pelo titular da Presid\u00eancia ao intermediar os la\u00e7os de comando que originalmente conectavam o Planalto \u00e0s principais burocracias federais. Al\u00e9m da Vice-Presid\u00eancia, os minist\u00e9rios agrupados nesse n\u00facleo s\u00e3o o da Defesa, a Casa Civil, a Secretaria de Governo, a Secretaria de Assuntos Estrat\u00e9gicos, aos quais se soma o Comando do Ex\u00e9rcito. Recentemente, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, dirigido pelo civil Mandetta, se aproximou desse n\u00facleo. Apesar dos titubeios de seu titular, como o ataque ao SUS, e concess\u00f5es ao negacionismo cient\u00edfico professado pelo primeiro mandat\u00e1rio, a pasta aplicou medidas emergenciais no geral corretas no combate \u00e0 crise sanit\u00e1ria, em especial o isolamento social horizontal.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>4) H\u00e1 ainda o n\u00facleo econ\u00f4mico hegem\u00f4nico, doutrinariamente ultraliberal, motivado mais por suas convic\u00e7\u00f5es do que pelas evid\u00eancias emp\u00edricas, cujo anti-programa empreende o desmonte do aparato administrativo desenvolvimentista, seja no que se refere ao suporte ao incremento produtivo, seja no que tange \u00e0 prote\u00e7\u00e3o ao trabalho e \u00e0 seguridade social. Aqui se abriga o minist\u00e9rio do Desenvolvimento Regional, que carece de personalidade, pois \u00e9 uma extens\u00e3o da pasta da Economia. Seu titular \u00e9 Rog\u00e9rio Marinho, art\u00edfice da reforma trabalhista levada a cabo no governo Temer, importante operador da \u00faltima reforma da Previd\u00eancia, al\u00e9m de idealizador da legisla\u00e7\u00e3o que asfixia dos sindicatos e centrais sindicais dos trabalhadores. O titular da Economia, Paulo Guedes, outrora muito prestigiado pelo presidente, \u00e9, no interior do governo, a voz do mercado de capitais, sua \u00e1rea de origem. No presente momento, seu repert\u00f3rio te\u00f3rico e pr\u00e1tico, exclusivamente voltado \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de riqueza nas m\u00e3os dos detentores de t\u00edtulos de cr\u00e9dito, n\u00e3o consegue dar conta de enfrentar os desafios postos agudamente pela crise sanit\u00e1ria, mas que j\u00e1 eram prenunciados no per\u00edodo anterior. Incapaz de olhar para al\u00e9m dos chamados muros da austeridade fiscal, o Minist\u00e9rio atua ativamente no sentido de reduzir o montante de recursos necess\u00e1rios \u00e0 mitiga\u00e7\u00e3o da crise entre os detentores de menor, ou nenhuma, renda, intento para o qual conta com a omiss\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, cuja iniciativa face \u00e0 atual crise \u00e9 nula, al\u00e9m da expressa contrariedade do presidente diante das atuais medidas sanit\u00e1rias.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>5) Por fim, o n\u00facleo que devota fidelidade irrestrita ao presidente, e o estimula \u00e0 tomada de decis\u00f5es que afrontam a ci\u00eancia, quando n\u00e3o o bom senso. Ele \u00e9 composto pelo Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, chefiado pelo general Heleno Pereira, e pela secretaria geral da Presid\u00eancia, dirigida pelo ex-oficial da Pol\u00edcia Militar do Cear\u00e1, Jorge Oliveira. Em complemento, sem cargos oficiais de prest\u00edgio, mas com poder de influ\u00eancia inconteste, temos o enclave familiar, composto pelos tr\u00eas filhos mais velhos do presidente, que constitu\u00edram o chamado Gabinete do \u00d3dio, um dispositivo privado sustentado pelo er\u00e1rio e sediado em pr\u00e9dio p\u00fablico, cuja produ\u00e7\u00e3o principal \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o de fake news, e a incita\u00e7\u00e3o dos apoiadores incondicionais do chefe de Estado. Nesse momento de cr\u00edtico e volunt\u00e1rio isolamento pol\u00edtico do chefe de Estado, o Gabinete do \u00d3dio elabora e aconselha o mandat\u00e1rio a empreender a\u00e7\u00f5es public\u00edsticas que afrontam n\u00e3o apenas as recomenda\u00e7\u00f5es das autoridades sanit\u00e1rias nacionais e mundiais, mas tamb\u00e9m violam as delibera\u00e7\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es da democracia.<\/p>\n<p>6) Culminando esse arranjo singular temos a pr\u00f3pria figura do presidente da Rep\u00fablica, que a princ\u00edpio deveria coordenar todas as a\u00e7\u00f5es e iniciativas ministeriais. Efetivamente, ele n\u00e3o exerce essa atribui\u00e7\u00e3o, ou a exerce de maneira, por assim dizer, heterodoxa. N\u00e3o se percebe de sua parte uma atitude de acompanhamento, avalia\u00e7\u00e3o e eventual corre\u00e7\u00e3o de rumos das atividades dos minist\u00e9rios. Menos atento aos resultados, e mais voltado \u00e0 disputa interna de poder, o que se presencia da parte do mandat\u00e1rio \u00e9 um movimento oscilante, que resulta ora em demonstra\u00e7\u00f5es de prest\u00edgio p\u00fablico a determinado ministro, para em seguida o pr\u00f3prio presidente exp\u00f4-lo a humilha\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, de modo a desgast\u00e1-lo. H\u00e1 forte evid\u00eancia de que essa peculiar forma de rela\u00e7\u00e3o entre o chefe do Executivo e o alto escal\u00e3o governamental seja pautada pela busca de concentra\u00e7\u00e3o do maior poder poss\u00edvel nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os, posto que ele n\u00e3o se vexa de declarar-se candidato \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, e de combater com todos os meios e modos aqueles que possam se apresentar potencialmente como seus eventuais advers\u00e1rios, especialmente seus ministros.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>Uma r\u00e1pida observa\u00e7\u00e3o indica que esse arranjo desarranjado tem alta probabilidade de funcionar mal, ou simplesmente n\u00e3o funcionar, pela evid\u00eancia de uma quantidade elevada de fragilidades.<\/p>\n<h5>A din\u00e2mica do desgoverno<\/h5>\n<p>A primeira delas \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que, de fato, n\u00e3o h\u00e1 presid\u00eancia, apenas presidente. Ou seja, Bolsonaro n\u00e3o disp\u00f5e de aparatos ativos e funcionais que lhe permitam uma abordagem compreensiva do aparelho do Estado e de sua alta dire\u00e7\u00e3o, em particular aquela de n\u00edvel ministerial. A constru\u00e7\u00e3o existente denota que, al\u00e9m da aus\u00eancia de algo parecido com um projeto de governo \u2013 que poderia ao menos fornecer os tra\u00e7os elementares de orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o do alto escal\u00e3o \u2013, a conduta presidencial promove deslocamentos bruscos de poder e compet\u00eancias entre os minist\u00e9rios, secretarias ministeriais e grandes empresas estatais.<\/p>\n<p>E mais: tais deslocamentos se operam ao sabor de delibera\u00e7\u00f5es unilaterais e aparentemente irrefletidas do pr\u00f3prio presidente, que n\u00e3o apenas n\u00e3o se orientam pela l\u00f3gica de realiza\u00e7\u00e3o das respectivas miss\u00f5es institucionais de cada grande bloco de compet\u00eancias dos minist\u00e9rios, mas tamb\u00e9m promovem um ambiente de disputa descontrolada entre os titulares das v\u00e1rias pastas. Tal disputa tem por objeto primeiro a amplia\u00e7\u00e3o ou consolida\u00e7\u00e3o \u2013 dependendo da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u2013 do dom\u00ednio de \u00e1reas de abrang\u00eancia deste ou daquele minist\u00e9rio, ou ainda a coleta do benepl\u00e1cito e da simpatia de Bolsonaro.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>Essa din\u00e2mica se tornou clara no epis\u00f3dio que envolveu os minist\u00e9rios da Economia e da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, al\u00e9m da pr\u00f3pria Presid\u00eancia, que pelejaram pela posse do Coaf, a qual, afinal, foi deslocada da pasta dirigida por Moro para aquela comandada por Guedes. J\u00e1 antes, esse tipo de disputa havia ocorrido em torno da nomea\u00e7\u00e3o de conselheiros do Cade, em julho de 2019, e viria a se repetir outras tantas vezes, entre as quais aquela que desencadeou queda de bra\u00e7o entre a secret\u00e1ria da Cultura Regina Duarte e o pr\u00f3prio Bolsonaro, tendo por m\u00f3vel de disputa a indica\u00e7\u00e3o de Sergio Camargo \u00e0 presid\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares. Nesse caso, sob os ausp\u00edcios do simulacro de orientador intelectual, Olavo de Carvalho.<\/p>\n<p>Esse padr\u00e3o de embate inter-burocr\u00e1tico traz lentid\u00e3o, quando n\u00e3o paralisia, aos processos de elabora\u00e7\u00e3o, delibera\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, fator que, em parte, explica os muito modestos resultados da gest\u00e3o iniciada em janeiro de 2019.<\/p>\n<p>Esses resultados poderiam ser ainda mais decepcionantes n\u00e3o fosse a interven\u00e7\u00e3o de dois tipos de atores no campo das pol\u00edticas p\u00fablicas: a presen\u00e7a maci\u00e7a do estamento militar nos postos de dire\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria e a atua\u00e7\u00e3o do estamento tecnocr\u00e1tico nos postos de opera\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, ambos conformando uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>deep state<\/em>.<\/p>\n<p>No primeiro caso, o n\u00famero de integrantes das For\u00e7as Armadas cedidos a \u00f3rg\u00e3os da administra\u00e7\u00e3o federal direta aumentou 43% de 2018 a 2019. Atualmente, s\u00e3o cerca de 2897 militares cedidos e com cargos de confian\u00e7a, sendo 1595 do Ex\u00e9rcito, 680 da Marinha e 622 da Aeron\u00e1utica. Se o c\u00e1lculo se estender \u00e0s empresas estatais esse n\u00famero aumenta significativamente. N\u00e3o s\u00f3 tal presen\u00e7a \u00e9, certamente, uma das maiores da hist\u00f3ria, de fazer inveja at\u00e9 mesmo aos per\u00edodos militares, com tamb\u00e9m tem rendido outros ganhos corporativos \u00e0s For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>No segundo caso, os quadros permanentes do Estado, ou a chamada burocracia est\u00e1vel, que opera no sentido de preservar as chamadas pol\u00edticas de Estado, ou seja, aquelas que gozam de certa independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s interven\u00e7\u00f5es de ocasi\u00e3o emanadas da dire\u00e7\u00e3o do Executivo, e s\u00e3o precisamente as que t\u00eam maior impacto e capacidade estruturante no \u00e2mbito da a\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>Boa parte dessas burocracias subsistem por muitas d\u00e9cadas, de modo que seus agentes, que nelas ingressam por concurso p\u00fablico, constituem culturas pr\u00f3prias, passadas sucessivamente de uma gera\u00e7\u00e3o de servidores p\u00fablicos a outra, de modo que os ingressantes incorporam e levam adiante valores h\u00e1 tempos dominantes nessas \u00e1reas do Estado, valores esses que orientam suas a\u00e7\u00f5es, projetos e interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 o caso do BNDES, uma esp\u00e9cie de \u201corganiza\u00e7\u00e3o governamental aut\u00f4noma\u201d, com coes\u00e3o interna suficiente para impor-se e manter sua identidade, nas mais diversas conjunturas, de modo a permanecer um locus de agrega\u00e7\u00e3o de interesses com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento econ\u00f4mico e social, demonstrando alto poder de resili\u00eancia nas situa\u00e7\u00f5es mais adversas. Nesse sentido, s\u00e3o not\u00e1veis as declara\u00e7\u00f5es do ent\u00e3o presidente da institui\u00e7\u00e3o do governo Temer, Paulo Rabello de Castro, sobre a lisura da condu\u00e7\u00e3o do banco, a alta capacita\u00e7\u00e3o e conduta exemplar de seus t\u00e9cnicos. Do mesmo modo, cabe registrar que a assim chamada \u201cabertura da caixa preta do BNDES\u201d, uma das poucas promessas de campanha cumpridas pelo presidente eleito em 2018, revelou que, a exemplo de uma CPI instalada pelo Senado, duas comiss\u00f5es internas de apura\u00e7\u00e3o institu\u00eddas ao in\u00edcio do governo Temer e uma auditoria externa a custos declarados de R$ 42,3 milh\u00f5es, \u201cn\u00e3o encontraram evid\u00eancias de ilegalidade em contratos firmados nos governos anteriores\u201d, conforme declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do atual presidente da institui\u00e7\u00e3o Gustavo Montezano.<\/p>\n<div class=\"google-auto-placed ap_container\"><\/div>\n<p>Assim como no BNDES, em outras ag\u00eancias e estamentos um conjunto de objetivos e valores com grande capacidade de perman\u00eancia molda a conduta dos agentes e o rumo da administra\u00e7\u00e3o, de tal maneira, que as interfer\u00eancias dos sucessivos governos, orientadas por l\u00f3gicas ex\u00f3genas \u00e0s miss\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es, s\u00e3o minimizadas, quando n\u00e3o simplesmente neutralizadas. A despeito de toda a sorte de preconceitos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 esfera p\u00fablica existentes em nosso pa\u00eds, esse n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno nativo, nem tampouco recente.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma infinidade de exemplos hist\u00f3ricos e atuais, como o cerco do aparato diplom\u00e1tico ao presidente mexicano Vicente Fox (2000-2006), as dificuldades que Trump enfrenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o de seus desejos, muitas vezes obstada pela administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, e os aned\u00f3ticos epis\u00f3dios envolvendo a fracassada cria\u00e7\u00e3o da Petropaulo e da Nova Capital, ocorridos quando Paulo Maluf foi governador de S\u00e3o Paulo (1979-1982).<\/p>\n<p>A fragilidade do arranjo administrativo instalada desde janeiro de 2019, ainda que agravada pelos problemas potenciais acima apontados, muitos dos quais efetivamente se materializaram, foi tensionada ainda pela falta de trato de v\u00e1rios dos ministros do atual governo, com destaque para Paulo Guedes, que prima por declara\u00e7\u00f5es inadequadas, que recobrem uma multiplicidade consider\u00e1vel de assuntos, desde as escolhas amorosas de chefes de Estado de outras na\u00e7\u00f5es, at\u00e9 considera\u00e7\u00f5es desrespeitosas sobre os operadores do deep state, taxados de parasitas. Al\u00e9m, \u00e9 claro, das provoca\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas de parte dos ministros do n\u00facleo ideol\u00f3gico e do pr\u00f3prio presidente.<\/p>\n<h5>As contradi\u00e7\u00f5es do desgoverno<\/h5>\n<p>Se essa desfuncionalidade estrutural n\u00e3o foi superada, ela pode ao menos ser disfar\u00e7ada pelo peso do apoio popular ao presidente, que, embora decrescente, ainda segue sendo muito expressivo neste in\u00edcio de crise do coronav\u00edrus.<br \/>\nDesde o in\u00edcio de mar\u00e7o, esse arranjo desarranjado come\u00e7ou a apresentar fissuras, cada vez profundas e hoje vis\u00edveis a olho nu.<\/p>\n<p>Aos fraqu\u00edssimos resultados da economia, somaram-se os ind\u00edcios cada vez mais fortes dos efeitos delet\u00e9rios das reformas previdenci\u00e1ria e, sobretudo, trabalhista. Em pouco tempo, surgiu uma enorme massa de mais de 40 milh\u00f5es de trabalhadores informais, aos quais se somaram 12 milh\u00f5es de desempregados. Enquanto isso, o n\u00famero de milion\u00e1rios no pa\u00eds cresceu quase 20% e o patrim\u00f4nio dos felizardos que perfazem 1% dos mais ricos al\u00e7ou 49% da riqueza familiar do Brasil, a bagatela de US$ 3,5 trilh\u00f5es!<\/p>\n<p>Esses dados colossais de concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e renda, que atestam o agravamento da condi\u00e7\u00e3o de vida dos trabalhadores empregados ou n\u00e3o, j\u00e1 causavam inc\u00f4modo e deram causa a certo revisionismo de muitos liberais bem formados, na dire\u00e7\u00e3o da aceita\u00e7\u00e3o de alguns preceitos keynesianos.<\/p>\n<p>A crise sanit\u00e1ria, imprevis\u00edvel h\u00e1 cinco meses, e agora inevit\u00e1vel, colocou em situa\u00e7\u00e3o de colapso os supostos dos dirigentes econ\u00f4micos, mas tamb\u00e9m exigiu do governo uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e determinada no combate a uma pandemia, que \u00e9 de tal porte que poucos dos viventes do planeta tem lembran\u00e7a de algo semelhante.<\/p>\n<p>Essa conjun\u00e7\u00e3o de fatores exp\u00f4s a natureza desarranjada do arranjo estatal bolsonarista, e a incapacidade do mesmo no enfrentamento do enorme desafio.<\/p>\n<p>Coube ao deep state colocar suas tropas em campo, mesmo com o d\u00e9bil comando ministerial. Foi o corpo regular de agentes p\u00fablicos que primeiro se mobilizou para prover uma popula\u00e7\u00e3o pauperizada do m\u00ednimo de bens e servi\u00e7os que lhe desse esperan\u00e7a de sobrevida diante dessa grav\u00edssima crise. O Sistema \u00danico de Sa\u00fade, alvo de ataques por parte dos interesses privados enquistados no governo, passou a ser recurso \u00fanico e abrigo n\u00e3o apenas dos desvalidos, mas tamb\u00e9m das camadas m\u00e9dias, pois o sistema felizmente ainda \u00e9 de acesso universal.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do arranjo administrativo revelar sua baixa, ou quase nula capacidade operacional, seu articulador maior, o presidente, mostrou n\u00e3o estar \u00e0 altura da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>No olho da crise, desnorteado, abandonou o comando, e refugiou-se na prega\u00e7\u00e3o negacionista, na esperan\u00e7a de mobilizar as multid\u00f5es que o seguiram cegamente na elei\u00e7\u00e3o de 2018. Colheu dupla resposta negativa. As esperadas multid\u00f5es n\u00e3o se mobilizaram, e foram se reduzindo a um punhado de fan\u00e1ticos seguidores do suposto mito. O que ainda se mantinha da sua articula\u00e7\u00e3o administrativa foi ultrapassado pelos governos estaduais e pela a\u00e7\u00e3o de um legislativo conservador, mas dotado de senso de responsabilidade.<\/p>\n<p>Assim, na hora da verdade, aquela que o primeiro mandat\u00e1rio alardeia na leitura b\u00edblica, outras for\u00e7as se adiantaram ao l\u00edder demission\u00e1rio de suas obriga\u00e7\u00f5es. Externamente ao Planalto, \u00e9 vis\u00edvel o protagonismo do parlamento, de governos estaduais e prefeituras e o ressurgimento de uma oposi\u00e7\u00e3o de esquerda que reclama protagonismo, acompanhada por manifesta\u00e7\u00f5es de um movimento sindical combalido, mas ainda vivo. Internamente, o clima de motim se alastrou pela administra\u00e7\u00e3o. Ministros contradizem e, implicitamente, censuram o desleixado presidente. O tr\u00e2nsito entre os n\u00facleos do arranjo se intensifica, novas alian\u00e7as e novos antagonismos se estabelecem em ambiente em que o outrora l\u00edder perde cada vez mais a iniciativa, e a pouca capacidade de coordena\u00e7\u00e3o que tinha. O arranjo entra em processo de desintegra\u00e7\u00e3o, e, com ele, o mandato de um presidente contestado nacionalmente, e tratado de maneira caricata no plano internacional.<\/p>\n<p><strong>Angelo Del Vecchio<\/strong>\u00a0\u00e9 cientista social e livre-docente em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica; e\u00a0<strong>William Nozaki<\/strong>\u00a0\u00e9 cientista social e docente nas \u00e1reas de Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Desenvolvimento Econ\u00f4mico.<\/p>\n<\/div>\n<p><em><strong>Fonte: Observat\u00f3rio da Economia Contempor\u00e2nea &#8211; via Le Monde Diplomatique<\/strong><\/em><\/p>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por\u00a0Angelo Del Vecchio e William Nozaki Artigo do Observat\u00f3rio da Economia Contempor\u00e2nea\u00a0tra\u00e7a esquema das estruturas do governo Bolsonaro e analisa a din\u00e2mica do governo tocada por essa distribui\u00e7\u00e3o de poder &nbsp; &nbsp; Afinal, do que se trata o ins\u00f3lito governo Bolsonaro? 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